Ferrugem na veia

Todo primeiro sábado do mês, o estacionamento 8 do Parque da Cidade, em Brasília, vira ponto de encontro dos amantes de carros antigos. O evento conta com food trucks, lojinhas de peças e, principalmente, muitos veículos

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postado em 11/01/2018 22:23 / atualizado em 12/01/2018 00:39 Geison Guedes /Especial para o Correio
Imagem aérea do Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade - Clayton Sousa Imagem aérea do Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade
 
A paixão do brasileiro por carros está no sangue: vem desde pequeno, em alguns casos é repassada de pai para filho, ou simplesmente nasce com a pessoa. Basta ter rodas e motor. Isso é suficiente para fazer muito marmanjo babar. O fascínio é gigantesco e não interessa o estilo. Todos causam furor, do superesportivo ao zero quilômetro, passando pelas competições — especialmente a Fórmula 1—, até chegar aos clássicos, ou antigos, como os adeptos costumam chamar.

O antigomobilismo faz parte desse amor verde e amarelo pelo motor. Como moda ou não, ganha cada vez mais seguidores. O que antes era visto com coisa de acumulador virou cult. Agora, ter um veículo antigo é ser pop, descolado. Lógico: com mais pessoas admirando a arte, mais ela se populariza. Quem tem ou conhece alguém que tenha, certamente já ouviu — ou usou — a expressão ferrugem na veia. O termo é uma forma de exemplificar essa paixão que ganha cada vez mais adeptos.

No Distrito Federal, o que não faltam são clubes de modelos específicos, como o do Fusca, o do Chevette, o do Opala, o do Puma, o do Alfa Romeo, e o Mopar (de donos de Dodge, Jeep e Chrysler). Sem contar os novos clássicos, como Marea, Kadett, Gol quadrado. E ainda a reunião daqueles sem modelos específicos, como o Veteran Car Brasília. Cada um desses tem seu representante e faz sua associação. Quem tem ferrugem na veia também participa de um dos grupos mais legais do DF: o Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade.

Há cerca de 15 anos, um pequeno grupo de amigos resolveu se reunir no estacionamento 8 do Parque da Cidade. De lá para cá, o evento cresceu, ficou ameaçado de acabar, mas se fortaleceu e acontece todo primeiro sábado do mês, faça chuva, faça sol. O encontro cresceu de tal forma que ficou desorganizado. O GDF ameaçou acabar com a reunião, que não tinha nenhum tipo de autorização para ocorrer no lugar. Assim, quatro clubes — Chevette Capital, RDA Car Club, Clube do Opala de Brasília e Puma Clube do Brasil — se uniram e passaram a planejar o encontro. No ano passado, o Fusca Clube BSB se juntou aos quatro. Pronto.

Rural no  Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade - Geison Guedes/Esp. CB/D.A Press Rural no Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade

Organizado e legal

A partir de então, os presidentes das associações foram atrás de autorizações e permissões junto à Administração de Brasília, Detran e demais órgãos do GDF para regularizar e legalizar o evento. Conseguindo todas as licenças, o Encontro pôde continuar no mesmo local em que começou, atraindo centenas de carros e inúmeras pessoas, tudo de forma bem organizada. “Não precisa ser membro de nenhum clube para participar, basta ter um carro antigo. Não cobramos entrada: a única coisa que pedimos é a contribuição de 1kg de alimento”, conta Vilmar Amaral, presidente do Chevette Capital.

Segundo Amaral, existe um acordo do Encontro com a Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedest). Nele, toda a arrecadação de alimentos é repassada ao órgão, que a distribui. “As doações são feitas para instituições beneficentes associadas à secretaria. Por encontro, arrecadamos meia tonelada de alimentos. Algumas pessoas trazem mais do que o 1kg necessário. Tem gente que vem com um pacote de 5kg arroz ou de açúcar, por exemplo”, aponta.

Com a nova organização, além da arrecadação dos alimentos, o encontro conta com o apoio do Detran para monitorar o trânsito no local, otimizando a segurança. De acordo com Artur Jota, presidente do Fusca Clube BSB, uma das grandes melhorias feitas após a regularização foi a separação das áreas. “Agora, temos uma praça de alimentação, com diversos food trucks. Antigamente, era cada um em um lugar diferente. Isso sem falar nos “mercados de pulgas”, que também ficam juntos. Assim como cada clube, que conta com uma área específica.”

Marcelo Araújo, presidente do Clube do Opala de Brasília (COB), corrobora a fala de Jota. Para ele, desde que o encontro foi legalizado, o evento melhorou 100%. “Desde que você passa a ter uma autorização para fazer uma coisa organizada, com normas e regras, as coisas ficam mais tranquilas. Você pode vir e trazer os filhos, a família toda. Você sabe que não vai ter um carro acelerando rápido demais, que não vai ter ninguém pagando borrachão (dando cavalo de pau) no meio da pista, não vai ter nenhuma manobra radical. Isso porque é tudo organizado, tem segurança, banheiro, pessoas para organizar.”

Um negócio de família
Pai e filho no Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade - Geison Guedes/Esp. CB/D.A Press Pai e filho no Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade

Sim, a paixão por carros é algo intrínseco ao brasileiro e, normalmente, passada de pai para filho. É o caso do motorista Wellington Ribeiro, 32 anos, e de seu filho, o estudante Vinícius Ribeiro, 14, moradores do Cruzeiro Novo. Desde 2012, eles comparecem — com o amigo Fernando Ferreira, 60, morador da Cidade Ocidental — ao Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade. Isso sem nem mesmo ter, atualmente, um clássico.

Wellington conta que, por trabalhar com automóveis, sempre nutriu um carinho pelos carros, não só os antigos. Acabou passando isso para o filho. “No início, eu que o arrastava para os encontros. Hoje, é ele quem me arrasta”, brinca. Segundo a dupla, se alguém quiser achá-los no primeiro sábado do mês, basta ir ao estacionamento 8 do Parque da Cidade. “Praticamente batemos ponto aqui, não tem erro. Se tiver encontro do parque, estaremos lá”, aponta Vinícius.
Geison Guedes/Esp. CB/D.A Press

A paixão de Fernando pelos automóveis também teve inspiração familiar. Segundo ele, o pai era caminhoneiro e, desde garoto, aprendeu a trabalhar nos veículos. “Eu mexo com carro desde os 12 anos. Aos 14, tive um Gordini. É coisa de berço. Meu pai dizia que a minha mamadeira não era de leite, mas de gasolina”, lembra Fernando. Os três estão à procura de um carro para reformar e contam que aproveitam o encontro para buscar ideias. “Quando vemos um à venda, o bolso até coça. Mas queremos pegar um para reformar mesmo”, conta Wellington. “Não queremos nada muito sofisticado: um Chevette, um Gol quadrado ou um Opala. Mas devemos fazer mesmo um Opala seis canecos”, aponta Vinícius, usando a gíria para identificar o motor de seis cilindros.

Na força dos clássicos
Amigos curtem o Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade - Geison Guedes/Esp. CB/D.A Press Amigos curtem o Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade

O analista de sistemas Osmar Martins, 32, morador de Vicente Pires, também é um frequentador assíduo do Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade. Antigamente, ele ia apenas como visitante, mas desde que “resgatou” o antigo Fusca 1975 do pai, comparece com ele em todas as reuniões. “Meu pai comprou esse Fusquinha quando eu tinha apenas seis meses de vida. Há 12 anos, ele faleceu e, desde então, o carro ficou parado. Até que, no ano passado, eu resolvi colocá-lo para rodar.”

Segundo Osmar, mesmo com tanto tempo parado, o Fusca não deu muito trabalho para voltar a funcionar. Tirando a pintura e o estofamento, está muito novo. “Pouco antes de morrer, meu pai tinha alterado o motor e o câmbio. Aí, só precisei fazer uma manutenção básica, trocar correias e óleo. O que mais deu trabalho foi o sistema de freio, que precisou ser todo modificado”. O resto Osmar arruma devagar, com o tempo.

Como a maioria dos adeptos, a paixão por carro antigo — principalmente pelo clássico Volkswagen — veio do pai. “Meu velho sempre teve um amor pelo Fusca. Houve uma época em que ele chegou a ter três. Não tem como não amar o bom e velho Besouro”, conta. Se Osmar herdou o fascínio por carros antigos do pai, ele também está repassando para o filho, o pequeno Pedro, de 5 anos. “Ele sempre fala: ‘Papai, esse carro aí vai ser meu?’ E eu respondo: ‘Se você merecer, vai ser seu sim, mas você vai ter que me ajudar’”, lembra. “Gosto muito do carro do papai e quero tê-lo um dia. Sempre ajudo a lavar e secar. Acho que vou merecer sim”, confia Pedro.

Ensinamentos para os filhos
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Outro frequentador assíduo do Encontro de Veículos Antigos do Parque da Cidade é o servidor público Marcelo Camilo, 45 anos, morador do Sudoeste. Proprietário orgulhoso de uma Kombi corujinha 1974 e de um Fusca 1968, ele também diz que a paixão por carros antigos vem desde cedo. “Quando eu era novo, não tinha dinheiro para comprar carro zero quilômetro. Com isso, acabava comprando uns antigos. Arrumava, vendia, comprava outro e seguia por aí. Mesmo quando consegui condições de ter um zero, sempre mantive um antigo.”

Ele conta que a preferência é por Fuscas e Kombis, por causa da simplicidade da mecânica. “Eu preferia os modelos com refrigeração a ar pela facilidade de arrumar. Eu mesmo mexia nos carros e botava para funcionar”, lembra. Para ele, o encontro do Parque é sagrado. “Aqui encontro amigos, conheço novas pessoas, gente com o mesmo gosto, que curte as mesmas coisas. Trocamos ideias, peças. É uma coisa bem completa.”

Para o servidor público, a arte do antigomobilismo vai muito além de ter um carro clássico. Ele diz que utiliza o tratamento com os veículos como uma forma de educar os filhos. “Para meus meninos, não é só questão de gostar de um automóvel. Eles veem o meu zelo com o carro e, assim, passam a ter mais cuidado com as coisas deles também. Eu falo: ‘Olha, isso aqui tem que cuidar, que nem o papai faz com a Kombi’. O aprendizado deles é muito grande”, afirma.
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10 de dezembro de 2018